Em 1958, o dramaturgo Nelson Rodrigues cunhou a expressão “Complexo de vira-lata” para descrever a inferioridade em que o brasileiro se coloca voluntariamente diante do mundo. Uma derrota no futebol fez Rodrigues usar essa expressão após o Brasil perder para o Uruguai em pleno Maracanã em 1950. O Brasil foi campeão mundial em 58 e 62. Mesmo assim, o fantasma uruguaio ainda rondava os brasileiros.
Mas foi na Copa de 1970 que esse fantasma foi vencido de forma definitiva. Naquele ano, sob a desconfiança de que o futebol europeu havia superado a nossa técnica, a seleção de Pelé deu um baile tático e artístico. O tri no México não foi apenas um título esportivo, foi uma cura psicológica coletiva: provamos que a nossa criatividade e a nossa essência eram invencíveis. O problema é que a nossa autoconfiança social ainda oscila. Hoje, às vésperas de mais uma Copa do Mundo, esse velho fantasma parece rondar não apenas os gramados, mas a nossa sociedade.
Do ponto de vista psicológico, esse comportamento mina a nossa autoestima coletiva. Quando acreditamos que o bom é sempre o outro, sabotamos nossa autoconfiança dentro e fora das quatro linhas. Para piorar, o país se vê fragmentado em extremos políticos, nos fazendo esquecer três características que estão no nosso DNA: a união, a força e a resiliência. Em vez de canalizarmos nossa energia para construir pontes, nos dividimos em bolhas de desconfiança. A psicóloga Brené Brown afirma que “o oposto da solidão não é a união, é o pertencimento. Sentir-se parte de algo maior do que nós mesmos é o que nos dá coragem para enfrentar o mundo”.
Nesse sentido, com a Copa o sentimento de pertencimento ganha nova roupagem. A amarelinha volta a ser símbolo de identidade e afeto, independente de posturas políticas. A verdadeira força do brasileiro está na capacidade de sorrir e se reerguer. A Copa do Mundo pode ser o gatilho emocional para lembrar que somos gigantes por natureza. Que possamos entrar em campo, na vida e na sociedade, de cabeça erguida, deixando o vira-latismo no passado e abraçando a esperança de um país unido e consciente do seu valor.

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