Antes de tudo, obrigado à leitora e jornalista Letícia Matos, que sugeriu o tema. Sua provocação chegou na hora certa. A convocação do Neymar para a Copa 2026 mexeu com o Brasil. Mas, se esse time convocado por Carlo Ancelotti vai trazer a Copa, não dá pra dizer. Porém, uma certeza é incontestável: fora do campo já estamos perdendo por conta do adoecimento mental pelo vício do jogo.
Um levantamento feito pelo portal Bolavip Brasil revela que 8 em cada 10 patrocínios principais do futebol brasileiro são de bets. É a marca na camisa, no banner, no pré-jogo e no pós-jogo. Por outro lado, o Brasil joga sem VAR quando o assunto é adoecimento mental: 51% dos brasileiros que apostam relatam aumento de ansiedade e 42% usam a bet como fuga da vida real. Os dados são da Universidade Federal Fluminense e do Instituto Locomotiva.
Fuga que vira labirinto: perdas, dívidas, desesperança e isolamento. O “joguinho” vira boleto, que vira depressão!
Em certa ocasião, conversei com um jovem de 17 anos que passou por um tratamento para transtorno do jogo. Ele me disse em uma conversa informal: “um dia perdi R$ 40 mil. Fiquei apavorado, me sentia ansioso, perdido, tinha que jogar todos os dias. Quando perdi esse valor, chamei meus pais e tive que passar por um tratamento. Entendi que era vício, pois meus pais eram bem de vida, não precisava jogar”.
Essa dor real, ouvida fora do ambiente clínico, prova que a angustia bate à nossa porta. O CID-11 E DSM-5, em Psicopatologia e Semiologia dos Transtornos Mentais, diz que o Transtorno do Jogo e de Apostas e Transtorno de Dependência da Internet “caracteriza-se por padrão persistente de comportamento de jogo no qual há prejuízo na capacidade e autocontrole”.
Na economia do país, o “olé” ecoa forte: 1,3 milhão de brasileiros ficaram inadimplentes só no primeiro semestre de 2024 por causa de apostas on-line. A Confederação Nacional do Comércio (CNC) calcula que 22% da renda disponível das famílias foi para o jogo entre junho de 2023 e junho de 2024, ou seja, R$ 117 bilhões em faturamento por ano.
É urgente a restrição de publicidade massiva das plataformas e a implementação de políticas públicas robustas de prevenção e tratamento ao transtorno do jogo.
Somente com ações que priorizem a saúde coletiva e a estabilidade socioeconômica será possível conter o endividamento sistêmico e mitigar a grave crise de saúde mental que afeta a população.
Jogo causa dependência sim! E sem regra, sem limite e sem alerta decente, o apito final pode ser desastroso.

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