A trágica morte do cão Orelha, espancado por adolescentes, não é apenas um caso de polícia, mas um grito de socorro de uma civilização em colapso moral. O que vemos hoje é o sintoma de uma patologia social profunda: a transferência da autoridade parental para os algoritmos e a metamorfose da casa em um dormitório de estranhos conectados. Vivemos em uma sociedade doente, onde a violência não é mais um desvio, mas um espetáculo cotidiano alimentado pela indiferença e pelo consumo de estímulos rápidos.
Na psicologia do dia a dia, notamos que a permissividade virou a regra. Pais, acuados pela falta de tempo ou pelo medo de serem “autoritários”, entregam o controle do desejo aos aparelhos e a futilidades. Ao dar tudo aos filhos, sem o filtro do esforço ou do limite, anulam um pilar da psicanálise: a função da castração.
Para o pai da psicanálise, Freud, o limite é o que nos torna humanos, é o “não” que permite a percepção do outro. Sem essa barreira, o jovem mergulha no narcisismo perverso, em que o mundo é um objeto a ser usado ou destruído. Quando os pais falham, o que resta é o agir impulsivo e desmedido. O uso de jogos violentos, por exemplo, como babá eletrônica cria uma anestesia emocional. A empatia nasce em um ambiente que dê sustentação ao amadurecimento, já dizia o pediatra e psicanalista britânico Donald Winnicott.
Quando o desenvolvimento é mergulhado em uma cultura líquida e descartável, o jovem desumaniza a vida. O animal vira um pixel, a dor vira um entretenimento. Essa violência doméstica transborda para as ruas, gerando uma sociedade onde a fúria é a resposta para qualquer frustração. Estamos criando sujeitos com ego inflado e caráter anêmico, que acreditam ser credores do mundo, ignorando o valor da vida alheia.
O caso do cão Orelha é um espelho que nos devolve uma imagem feia: a de uma sociedade que terceiriza o afeto e a educação. Precisamos resgatar a coragem de educar, pois o limite é, ironicamente, a maior prova de amor. Se não ensinarmos o valor do sopro de vida sob nosso teto, seremos meros espectadores de uma barbárie que nós mesmos, pelo silêncio e pela omissão, ajudamos a construir.
“Onde o consumo de estímulos substitui o diálogo, a empatia morre; somos uma sociedade de conexões rápidas e afetos descartáveis.” - Zygmunt Bauman

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