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COLUNISTAS

O algoritmo no divã: entre o rótulo e a falta de afeto

21/04/2026 22h09 | Atualizada em 21/04/2026 22h09 | Por: Marcos Madeira

Vivemos na era da vitrine psíquica, pois, ao abrir qualquer rede social, somos bombardeados por vídeos que prometem diagnosticar, entre filtros e curtidas, transtornos como TDAH ou burnout. O que antes exigia investigação clínica, hoje parece resolvido pelo algoritmo. Mas precisamos questionar: estamos ficando doentes ou apenas reagindo a um mundo sem empatia?

Como pontuou Sigmund Freud, “a ciência moderna ainda não produziu um medicamento tão eficaz quanto umas poucas palavras bondosas”. O problema é que, no digital, as palavras são reducionistas. O jovem, sedento por pertencimento, encontra no rótulo um refúgio. É comum ouvirmos e até falarmos “sou ansioso”. É mais fácil oferecer uma identidade pronta em um mundo de incertezas. 

Todavia, há um perigo na patologização de tudo: estamos transformando dores legítimas da alma em códigos de doenças, ignorando que o sofrimento pode ser fruto de uma cultura exaustiva e da escassez de amor. O psiquiatra Karl Jaspers defendia que a psicopatologia deve compreender a subjetividade, e não apenas catalogar sintomas. Quando nos autodiagnosticamos via TikTok, atropelamos nossa história, e o resultado pode ser trágico! 

Muitas vezes, a tristeza não é depressão, é a falta de espaço para ser ouvido. A agitação não é TDAH, é o reflexo de uma sociedade que não respeita o tempo do outro. Ao rotularmos cada desejo ou angústia, podemos estar silenciando o que o filósofo e psicanalista Erich Fromm chamava de “a arte de amar”, ou seja, a capacidade de enxergar o outro com respeito e paz. 

O indivíduo performa sintomas para ser validado, enquanto a verdadeira causa - por exemplo, a falta de acolhimento e a pressão por produtividade - permanece intocada. É de fato um paradoxo atual: nunca se falou tanto de saúde mental, mas nunca fomos tão analfabetos no cuidado básico com o próximo. Se em outrora não reconhecíamos as doenças emocionais como preocupação de saúde pública, hoje banalizamos sintomas e diagnósticos!  

A cura não vem de um rótulo colado por um algoritmo e de “achismo”, e sim do resgate da humanidade. Antes de medicar uma tristeza, precisamos olhar para o ambiente: há paz? Há respeito ao desejo do outro? A psicologia deve ser a ponte para a liberdade, não uma cela feita de termos técnicos para esconder a nossa falta de afeto.

“Uma reação anormal a uma situação anormal faz parte de um comportamento normal” - Viktor Frankl

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