Se o Dia Internacional da Mulher é um marco de resistência, ele precisa ser, também, um dia de revisão da masculinidade. Afinal, de nada serve celebrar as conquistas femininas se não educarmos as mãos que as ameaçam. A verdadeira homenagem não está nos parabéns, mas na lousa que ensina meninos de que a força nunca deve ser sinônimo de dominação.
O feminicídio não começa com um gatilho ou uma lâmina; um “psiu” basta, depois o controle disfarçado de cuidado, uma estrutura milenar que ensinou homens a possuir, restando às mulheres servir. Para entender o que acontece hoje nas manchetes policiais, lançamos um olhar para Ophelia, a personagem de Shakespeare em Hamlet. Ela não morreu apenas por amor, ela morreu porque foi sufocada pelas expectativas dos homens ao seu redor: pai, irmão e amante. Ophelia é o símbolo histórico da mulher que se despersonaliza até perder o chão.
Essa “sina de Ophelia” nos fala sobre a representação do sistema patriarcal; uma engrenagem que esconde a violência sob o manto da tradição. O machismo mais perigoso não é apenas o grito, mas o silêncio “escondido” nas piadas de grupo de WhatsApp e na ideia de que “homem não chora”. É aqui que a psicologia entra para nos dar um choque de realidade.
No meio desse labirinto, o psicanalista Donald Winnicott nos ensina sobre a importância do “ambiente facilitador”. Se a família e a escola falham em ser esse ambiente, o menino cresce acreditando que para ser homem ele precisa dominar. O “complexo de superioridade” é uma máscara para uma profunda insegurança. O agressor, em sua essência, é alguém que não aprendeu a lidar com a própria fragilidade e projeta no controle sobre a mulher a sua falsa força.
A solução para quebrarmos a trágica história de Ophelia não se limita apenas a leis mais rígidas - embora elas sejam fundamentais, como o movimento Maria da Penha e as frentes de proteção atuais. A verdadeira revolução é educacional. Precisamos levar o debate para o pátio da escola. É necessário ensinar aos meninos que a masculinidade não é um trono de posse, mas uma construção de respeito.
Se não ensinarmos os pequenos a reconhecerem a autonomia das meninas como valor sagrado, continuaremos apenas enxugando o sangue de um chão que o patriarcado insiste em molhar. A violência contra a mulher é um crime contra a humanidade. E a cura desse mal escondido começa no diálogo e na coragem de dizer que o “destino” de nenhuma mulher deve ser escrito pela mão de um homem que não aprendeu a ser humano.

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