O espaço comum de debate e construção do diálogo foi substituído pelo feed. A política, antes um campo de projetos coletivos, transformou-se em um palco de entretenimento. Quando políticos se tornam criadores de memes e influenciadores, ignoram a complexidade do social em favor do engajamento; o impacto no psiquismo individual e coletivo é profundo.
O primeiro sintoma é a fragmentação da atenção e do pensamento. Quem alerta é o pai da psicanálise, Sigmund Freud. Em “Psicologia das Massas e a análise do eu”, Freud reforça que “o indivíduo, ao se fundir à massa (ou à “bolha” digital), abre mão de sua consciência crítica em favor de uma identificação afetiva com o líder ou com o grupo”.
No extremismo atual, que gira o globo, essa identificação é reforçada pelo ódio ao “outro”, gerando um estado de alerta constante e ansiedade paranoide (sentimentos intensos de pensamentos de desconfiança ou perseguição). Já a falta de consciência e de projetos políticos reais nos leva para o que o psicanalista Donald Winnicott chamaria de uma vida pautada no “Falso Self” (um falso eu, ou uma máscara para se proteger ou esconder-se de alguém ou algo). O indivíduo deixa de ser um cidadão para ser somente um espectador.
Sem um projeto pautado na diversidade que nos cerca, nesse Brasil de complexidade cultural, a sociedade adoece por desamparo. Quando a política não oferece segurança e a sensação de um futuro minimamente estável, o resultado é o aumento de quadros depressivos e a sensação de vazio existencial.
O que vemos na atualidade são discursos digitais sem noção da “pólis”, promovendo uma perigosa infantilização do debate. Em vez de lidarmos com a alteridade, buscamos o espelhamento narcísico. Para o psicanalista Jacques Lacan, “o desejo é sempre o desejo do Outro”. No mundo da era digital, esse “Outro” pode ser apenas uma projeção de nossos próprios preconceitos. A consequência é uma sociedade exausta, polarizada e emocionalmente desregulada.
Nesse contexto, o desafio da psicologiasocial é ajudar o sujeito a recuperar sua autonomia, saindo do transe algorítmico para reencontrar o sentido da coletividade e da responsabilidade política como ferramentas de transformação e saúde mental.
“O homem é, por natureza, um animal político” - Aristóteles

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