Segunda-feira, 18 de maio de 2026
Tubarão
20 °C
11 °C
Fechar [x]
Tubarão
20 °C
11 °C
COTIDIANO

Engenhos de Sangão podem se tornar patrimônio cultural do Brasil

Há algumas semanas o município recebeu pesquisadoras do Iphan que coletaram informações para embasar os estudos. Conheça a história de um desses engenhos, que fazem de Sangão um dos maiores produtores do Estado

Sangão, 30/08/2023 12h32 | Atualizada em 31/08/2023 08h39 | Por: Willian Reis/Folha Regional
Fotos: Willian Reis/Folha Regional

Enraizados no passado, eles flertam com o futuro e revelam a capacidade da tradição de resistir ao tempo. Por trás de sua aparente simplicidade há todo um arsenal de conhecimento transmitido de geração em geração.

Os engenhos de farinha de mandioca ajudaram a formar a história de Sangão e agora, anos e anos depois, eles podem ser declarados em breve como bens do patrimônio cultural brasileiro pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).

Para isso, está em curso a produção de um dossiê sobre os fazeres e saberes desses engenhos de farinha. Semanas atrás, em julho, o município recebeu pesquisadoras do Iphan e da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), que colheram as informações para subsidiar o pedido de registro dos engenhos como bens culturais. O grupo também esteve em Imaruí, Imbituba e Garopaba.

Na comunidade de Orvalho 2, à qual se chega depois de deixar a marginal da BR-101 e seguir por suas estradas rurais, de chão batido, entre campos de plantação, está um desses engenhos de farinha que ajudam a fazer de Sangão um dos maiores produtores do Estado e que também foi objeto da pesquisa que está servindo de base para torná-los patrimônio cultural do país.

À frente do engenho está Realdo Manoel Rocha. Nascido e criado no Orvalho 2, a vida de Realdo se confunde com a produção artesanal de farinha: sua lembrança mais remota é a do próprio engenho. Agora com 53 anos, ele leva adiante o ofício que aprendeu dos pais e, como dita a tradição, já tem ao lado dois filhos, que o auxiliam na lida diária. 

“Se todo mundo virar as costas e não tiver interesse, isso pode se acabar. A gente tem que sempre passar para os mais jovens para dar continuidade e valorizar a cultura da mandioca. Outra lavoura pode dar, mas igual à mandioca não tem”, comenta Realdo. 

Do seu negócio familiar, que envolve cerca de seis pessoas, ele abastece mercados e restaurantes da região, oferecendo tipos de farinha para todos os gostos. A marca – Mãe Allice – é uma homenagem à própria mãe, hoje com 73 anos e que também dedicou à vida aos engenhos. Em breve outra marca deve fazer parte do seu catálogo com o lançamento da farinha Rua do Fogo, em referência às origens do município.

No engenho nada se perde, tudo se transforma

No engenho, tem-se trabalho para o ano inteiro. Agora começa o período do plantio. Nos próximos meses, entre abril e fins de agosto, ocorre a colheita. Nesse meio-tempo, produz-se farinha, com raízes da própria plantação, mas também negociadas com agricultores da redondeza – sempre, claro, sob o olhar atento de Realdo para que não se perca a qualidade da produção. 

O trabalho no local, nos fundos de casa, testemunha as transformações do tempo. O que antes exigia o esforço de quatro pessoas agora é feito com a metade da mão de obra. Marco Antônio Remor, engenheiro agrônomo do município, ressalta a capacidade criativa do agricultor por trás das engrenagens dos engenhos. “Eu bato palmas para o nosso colono. Eles adaptaram um engenho outrora movido a boi para o maquinário”, destaca.

As raízes chegam na caçamba do caminhão, são despejadas sobre uma espécie de funil e passam por um raspador de oito metros, onde são lavadas e raspadas. Parte dessa água, a mais limpa, é reaproveitada na lavagem da mandioca. O restante segue por canaletas até os açudes, onde ocorre a decantação antes de seguir para o córrego, já submetida a análises e livre de poluentes. Cascas de mandioca, que são arrastadas por essa água, acabam servindo de alimento para o gado. Ou seja, nada se perde.

No interior do engenho, as raízes são raladas, seguem para um compartimento e são despejadas em chapas onde são prensadas. Desse processo resulta uma água leitosa, rica em nutrientes como nitrogênio, cálcio e magnésio, e que pode ser utilizada na roça como fertilizante natural ou como alimento para o gado. No entanto, para isso o líquido precisa antes repousar por 15 dias em um açude de lona, que o impede de se infiltrar no solo em estado bruto, até que, com a oxidação, esteja livre de elementos nocivos como o cianeto.    

Depois de prensada, a mandioca segue para o picador e depois para o forno, que antes era abastecido por lenha e agora funciona à base do cepilho de madeira, um pó muito semelhante à serragem. Finalizada a torra, a farinha está pronta para ser ensacada.  

Uma tradição que impulsiona a economia de Sangão

Com inúmeros avanços, ainda que permaneça artesanal, o funcionamento dos engenhos de farinha é resultado de uma atividade iniciada em Sangão no final do século 19, com a chegada das primeiras famílias de descendentes de açorianos até então instaladas na região de Aratingaúba, em Imaruí. Mas foram os indígenas os primeiros a dominar o plantio da mandioca, uma planta que se adaptou bem ao clima da região litorânea, onde há menor incidência de chuva.

O engenheiro agrônomo Marco Antônio Remor oferece assistência aos produtores locais. Ele lembra que até pouco tempo atrás a cultura da mandioca estava marginalizada, sem receber a devida atenção de órgãos técnicos ligados à agricultura. Remor ajudou a buscar soluções e estratégias que permitissem, por exemplo, a obtenção de licenciamentos ambientais, o que começou a ocorrer a partir de 2018, e agora acompanha com expectativa a possibilidade de os engenhos de farinha de mandioca do município escreverem um novo capítulo, tornando-se bens materiais, protegidos como patrimônio cultural brasileiro.

Na visita ocorrida em julho, o grupo de pesquisadoras esteve também na empresa Rocha Alimentos, onde conheceu os setores de produção, entre eles o responsável pela pesquisa e desenvolvimento de novos produtos à base de mandioca. 

Sangão conta com cinco engenhos ativos e outros cinco inativos, que podem voltar à atividade a qualquer momento. Estima-se uma produção total de 20.724 toneladas por hectare de mandioca. No município são R$ 660 milhões por ano em movimentação econômica das indústrias de farinha.

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE
Notícias de Tubarão (SC) e região | Folha Regional

Avenida Marcolino Martins Cabral, 926, sala 1006, Centro | Edifício EJB | Tubarão (SC) | WhatsApp (48) 9 9905-1638

Notícias de Tubarão (SC) e região | Folha Regional © Todos os direitos reservados.
Portaliza - Plataforma de Jornalismo Digital
WhatsApp

Utilizamos cookies para oferecer melhor experiência, melhorar o desempenho, analisar como você interage em nosso site e personalizar conteúdo. Ao utilizar este site, você concorda com o uso de cookies.

Ok, entendi!