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COLUNISTAS

O despertar do Pai feroz e o silêncio da prevenção

24/03/2026 23h05 | Atualizada em 24/03/2026 23h05 | Por: Marcos Madeira

Em março de 1974, as águas não apenas subiram, elas rugiram! Tubarão, a Cidade Azul, foi tingida pelo barro de uma tragédia que ainda ecoa no inconsciente coletivo de Santa Catarina. 

O rio, cujo nome ancestral “tuba-nharô” significa “pai feroz”, reivindicou seu leito com uma fúria que deixou cicatrizes profundas.

Hoje, décadas depois, olhamos para as águas e nos perguntamos: o que aprendemos?

Anualmente, seminários são realizados para marcar a data da calamidade. No entanto, para quem vive a realidade clínica e observa a gestão pública, fica um amargo questionamento: seriam esses encontros meros ritos de passagem, vazios de resolutividade? A efetividade de ações robustas para minimizar novos desastres parece flutuar em um horizonte distante, enquanto a região da Amurel segue vulnerável sob a promessa de projetos que tardam a sair do papel.

Para a psicologia, o trauma de um desastre dessa magnitude não se esvai com a vazante do rio. Ele se torna um “trauma geracional”. Vimos isso recentemente no Rio Grande do Sul e nas tragédias recorrentes na Zona da Mata mineira. Existe uma ansiedade antecipatória que se manifesta a cada nuvem carregada. É o que chamamos dentro de um contexto psicológico de “transtorno de estresse pós-traumático” (TEPT) coletivo. É tão profundo que o som da chuva deixa de ser acalento para virar gatilho de pânico. A vida emocional das pessoas fica suspensa, e a casa, que deveria ser o refúgio seguro, torna-se uma armadilha potencial.

A psicologia moderna das emergências e desastres aponta que a intervenção não deve ser apenas paliativa, mas estrutural. Como destaca a psicóloga Maria Helena Franco, referência no estudo do luto e crises: “o desastre rompe a previsibilidade da vida e o sentimento de segurança no mundo”. Sob essa ótica, a falta de medidas preventivas por parte do Estado é, em si, um fator de adoecimento mental, pois mantém a população em um estado de “alerta constante”, impedindo o fechamento simbólico do luto e a reconstrução da confiança no ambiente onde se vive. 

A resiliência não nasce do esquecimento, mas do preparo. Negar a força do “Pai feroz” é um erro fatal. Ele respira sob as pontes, lembrando-nos de nossa finitude e da urgência de uma infraestrutura que honre a vida. Será que a região está realmente preparada? Ou estamos apenas esperando que a poesia da memória nos salve de uma realidade que exige técnica, coragem política e cuidado preventivo? O tempo corre como as águas: indiferente à nossa inércia, ele é implacável em sua natureza.

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