Em uma propriedade passada de geração em geração, produtores optam pelos orgânicos para desenvolver uma agricultura sustentável
Willian Reis/Folha Regional Quanto mais se avança morro acima pela estrada sinuosa, de chão batido, mais a Tubarão urbana vai ficando para trás.
Neste cenário cercado de verde e silêncio fica a propriedade da família de Rudmir Damian, o Miro, a qual se chega depois de cruzar um córrego e um caminho por entre a vegetação. Estes hectares de terra guardam também histórias e a memória de quem dedica a vida à agricultura, respeitando os ciclos e os tempos da natureza.
Enquanto a tarde cai, Miro, de 57 anos, vai tecendo o passado de sua família no campo, tendo como companheiros o cachorro bagunceiro, que vez ou outra vem brincar aos pés do dono, e o aparelho de som ligado na rádio local. Depois da morte do pai e a saída dos irmãos, que foram atuar em outras áreas, restou para ele e a mãe, Maria de Lourdes Cataneo Raldi Damian, 77, a tarefa de levar a produção agrícola adiante.
Era por volta de 1999 quando eles decidiram se aventurar por um novo caminho e passaram a se dedicar aos orgânicos, deixando para trás a lida dura do cultivo de fumo.
De uma área total de 23,9 hectares, incluídos aí trechos de reflorestamento e de preservação, onde é possível plantar extrai-se mais de 50 tipos de produtos, com o desafio de cultivar sem agrotóxicos e em terreno montanhoso.
“Às vezes o orgânico até produz mais, porque trabalha com desenvolvimento sustentável. Tem alguns sistemas em que você tira do solo e não consegue mais repor. Não existe agricultor sem solo. O solo é uma coisa viva, e o agricultor vive dali”, ensina Miro.
Na prática isso resulta em uma produção que oferece o que a terra dá conforme a época. Mas no sítio mãe e filho também se dedicam a resgatar sementes crioulas, aquelas que não foram alteradas como os transgênicos. É, portanto, um trabalho de preservação não só do meio ambiente, como do próprio passado.
Para a venda dos produtos, eles têm hoje dois pontos de comercialização: uma feira em pleno Centro de Tubarão nas manhãs de quinta-feira e a merenda escolar do município. Miro vibra com a ideia de ver as crianças consumindo alimentação segura e de qualidade. Nesse caso a família conta com a atuação de uma cooperativa, a Cooperazul, que reúne outros agricultores familiares como eles e entra na licitação da prefeitura para fornecer os produtos para 47 escolas.
Em um grupo no WhatsApp eles apresentam o que cada um pode entregar no momento, e a partir daí o município define o cardápio dos estudantes.
Muito disso vem de uma outra visão que os agricultores estão tendo sobre o próprio ofício. O agro é pop, como se diz. “Tem que ter uma nova visão. Não é um sítio, é uma empresa. Esse é o desafio: gestão. Você não pode explorar porque vai se acabar, mas você tem que produzir, você tem que viver”, comenta Miro.
Mas ainda assim permanece o desafio de lidar com a natureza e seus caprichos, suas mudanças às vezes bruscas. “A natureza é fantástica. Se você não for contra ela, você consegue produzir muito”, diz o agricultor. Seu sítio tem uma variedade de espécie, hortas e árvores em todo canto, algumas até pouco comuns na região. Sem contar os porcos e galinhas que eles mantêm na propriedade.