Destino de surfistas em busca das maiores ondas do país, a Laje da Jagua, em Jaguaruna, foi palco de um importante momento da história: o naufrágio que atingiu a embarcação de Giuseppe Garibaldi, dias antes da Tomada de Laguna, cuja encenação começa a ser exibida a partir de hoje
Era no tempo do Império. O revolucionário italiano Giuseppe Garibaldi e sua tropa deixavam o Rio Grande do Sul para trás e planejavam atingir e invadir Laguna, em Santa Catarina. Não era um plano simples, mas, pelo histórico aventureiro de Garibaldi, a “irresistível vocação para a vida de aventuras”, não parecia ser algo que o amedrontasse.
Veja, por exemplo, o motivo que o fez dar as caras aqui no Brasil. Em sua terra natal, Garibaldi, declarado inimigo pelas nações que não queriam a unificação da Itália, foi condenado à morte pela sua luta a favor da Jovem Itália, uma sociedade fundada por gente que queria unificar as diversas regiões da península itálica, criando assim o Estado Italiano sob a forma de governo republicana. Governos da Espanha, Áustria e França, claro, ao verem seus interesses contrariados, torceram o nariz para a ideia, claro.
Garibaldi chegou ao Brasil em 21 de novembro de 1835, acompanhado de outros patriotas igualmente expulsos da Itália por seus ideais republicanos. No Rio de Janeiro, conheceu o general Bento Gonçalves, um dos líderes da Revolução Farroupilha, que buscava a independência da província do Rio Grande do Sul do Império do Brasil. Não muito diferente, portanto, das ideias políticas que Garibaldi cultivava desde a Itália, como lembra o historiador Wolfgang Ludwig Rau no livro “Anita Garibaldi – O perfil de uma heroína brasileira”.
De Bento Gonçalves, então encarcerado no Rio de Janeiro, recebeu a missão de atacar o governo imperial pelo mar. Adílcio Cadorin, ex-prefeito de Laguna e autor de “Anita Garibaldi – A Guerreira das Repúblicas”, conta em sua obra que então a Marinha Republicana riograndense não existia, ainda que fosse preciso libertar o Porto de Rio Grande, indispensável à consolidação da república. Mas havia também o plano de tomar Laguna, uma das investidas mais épicas das tropas separatistas.
Com o porto do Rio Grande fechado pelos imperialistas, os soldados farrapos construíram carroções de madeira para transportar duas embarcações por terra, o Seival e o Farroupilha (também chamado de Rio Pardo), puxados por duas centenas de bois durante trechos do trajeto entre Camaquã e Tramandaí.
Foi uma operação audaciosa, enfrentando terrenos difíceis, lodaçais e restinga de areia mole, tudo em segredo, longe dos olhos das tropas imperiais. O comando do Seival foi confiado ao americano John Griggs; Garibaldi liderou o lanchão Farroupilha.

15 de julho de 1839, às três horas da tarde
Da Barra de Tramandaí, as duas embarcações lançaram-se ao mar, rumo a Laguna. Soprava um vento sul forte e ameaçador. O Rio Pardo, de Garibaldi, tinha 30 homens a bordo, um canhão ao centro, baús e objetos de todo gênero, afinal os revolucionários não sabiam quanto tempo ficariam no mar o que condições teriam de abordar os inimigos. A todo instante o navio era coberta pelas ondas, que se elevavam com a força do vento e pareciam engolfá-lo por completo.
Garibaldi decidiu, então, aproximar-se da costa. Mas o mar, que se erguia cada vez mais, frustrou os planos do navegador. Uma onda terrível, segundo relato de Garibaldi, virou a embarcação de lado.
No momento do naufrágio, Garibaldi estava encarapitado em um dos mastros do Rio Pardo. O lanchão virou sobre o estibordo, isto é, o lado direito do navio. Garibaldi foi lançado a cerca de 30 pés de distância, mas – confessa o revolucionário italiano – em nenhum momento pensou na morte.
Era 15 de julho de 1839, às três horas da tarde, quando se deu o naufrágio, mais um entre outros que ocorreram antes ou ocorreriam depois, rendendo ao lugar a temida fama de cemitério de navios.
O local hoje passou a ser conhecido como a Laje da Jagua, em Jaguaruna, em cuja área, por uma combinação de fatores, se dão as maiores ondas do país e que atraem surfistas em busca de adrenalina. Também conhecida como Parcel do Campo Bom, ou a Pedra do Campo Bom, é uma formação rochosa submarina – uma laje de pedra – situada a 5,3 quilômetros da costa. No seu entorno, estão registrados, pelo menos, 78 naufrágios.
Ondas enormes, altas como montanhas
Voltemos ao naufrágio de nosso herói italiano. Esta e outras memórias estão registradas no livro “Memórias de Garibaldi”, escrito pelo dramaturgo francês Alexandre Dumas, autor de “Os Três Mosqueteiros”, entre tantos outros clássicos. Dumas, amigo e admirador, ouviu por horas as narrativas de Garibaldi já em Paris, no final de 1860.
Baseando-se nessas conversas e no próprio diário que Garibaldi mantinha, Alexandre Dumas escreveu as Memórias de Garibaldi, que, aliás, acabaram em samba. Em 2006, a partir deste livro, a escola de samba Imperatriz Leopoldinense, do Rio, apresentou o enredo “Um por todos e todos por um”, sobre as aventuras de Garibaldi e seu amor por Anita.
Com Garibaldi, ali, à deriva, não estavam precisamente marujos. Em vez de nadar para a costa, o italiano preferiu recolher alguns objetos mais leves, flutuantes. Aos gritos, ele ordenava aos seus homens que abandonassem o bombordo do navio a pique e apanhassem aqueles destroços, com os quais poderiam chegar à praia. Luigi Carniglia, o melhor amigo de Garibaldi, via-se em desespero, sem conseguir nadar, por causa de sua jaqueta.
Garibaldi tentava livrá-lo da roupa com um canivete quase sem fio quando uma onda os tragou, despedaçou a embarcação e lançou ao mar os que se mantinham a bordo. Carniglia não apareceu mais. Garibaldi conseguiu emergir e, ainda confuso, entre os ruídos de ventos e trovões, gritava pelo amigo. “Não ouvi resposta. Ele fora sugado para sempre”, lamentou.
Garibaldi descreve as ondas como enormes, altas como montanhas. Seus companheiros, esparsos, nadavam buscando a praia, distantes uns dos outros. Garibaldi alcançou a orla, mas a dor da perda de Carniglia o fez retornar ao mar, em busca do amigo.
Não o encontrou, mas se deparou com o amigo Eduardo Matru, a quem o definia como segundo irmão, nadando extenuado, em movimentos convulsivos. Garibaldi ainda tentou salvá-lo, mas Matru desapareceu na água. Mergulho, gritos, desespero, tudo foi inútil. Mais uma vez, Garibaldi perdia um de seus amigos para o mar revolto.
Dos 30 tripulantes, 16 morreram afogados, carregados pelas ondas. Entre os 14 sobreviventes, alguns deles jovens americanos, nenhum italiano. Os seis compatriotas de Garibaldi que o acompanhavam estavam todos mortos. Para Garibaldi, todos bons nadadores, que, ao se fiarem em sua habilidade, abriram mão de um destroço que os ajudasse a boiar. Sentado na praia, Garibaldi, com a cabeça entre as mãos, parece ter deixado uma lágrima rolar.
Foi quando ouviu um lamento. Sua tropa de homens completamente desconhecidos padeciam do frio. Obrigou-os a correr. Aos poucos, com o exercício à beira-mar, os movimentos dos membros, a circulação nas artérias, iam sendo recobrados, devolvendo-os à ativa.
Comandado pelo americano John Griggs, excelente navegador, o Seival, de construção diferente da do Farroupilha, conseguiu resistir à tempestade e seguir em sua rota. Entrou na Barra do Camacho, cujo nível de água aumentara pelas chuvas recentes, até ser localizado pela tropa de Garibaldi e as demais forças de terra dos revolucionários. No Camacho, Garibaldi assume o comando do Seival, pronto para um novo golpe, estratégico e audacioso. Ele iria tomar Laguna com apenas uma embarcação, sem ter de encarar o mar aberto. O resto é história.
A Tomada de Laguna, o espetáculo
Esta e outras histórias estão em cartaz em Laguna a partir desta quarta-feira, dia 21, com o espetáculo A Tomada de Laguna. As apresentações ocorrem até o sábado, dia 24, no Centro Histórico, e reúnem mais de 500 pessoas, entre atores, figurantes e equipe técnica. Lize Souza e Werner Schünemann interpretam os personagens principais, Anita e Giuseppe.