Primeiro, a interdição. Depois, a demolição. Há cinco anos moradores perderam a única travessia que ligava a comunidade. Os deslocamentos ficaram mais demorados, assim como veranistas ficaram sem um atalho providencial para as praias do norte do município
Willian Reis/Folha Regional Para quem chega pela Rodovia Municipal Pedro Rosa Lemos, a conhecida Estrada Geral da Jabuticabeira, em Jaguaruna, uma placa improvisada na qual se lê PONTE INTERDITADA faz o alerta aos motoristas.
Improvisada porque, amarrada a uma cerca de arame farpado, ao rés do chão, a placa não exibe, além da mensagem, nenhuma logomarca, brasão ou qualquer outro detalhe que a remeta a algum órgão público. Parece ter sido feita a pincel, preto no branco.
Mas, interditada há cinco anos, a situação da ponte que deveria interligar o bairro Riacho dos Franciscos não deve ser novidade para quem transita pela região com mais frequência. O local é uma pequena e pacata comunidade, de poucas casas, mas com grandes áreas de terra, algumas destinadas à criação de gado de corte. Próximo ao Balneário Camacho, servia de atalho para os veranistas a caminho do mar.
Beco sem saída
Da Jabuticabeira até a Ponte do Riacho, que já não existe mais, pela lei municipal a estrada de chão batido foi nomeada Rua José da Costa Pereira. É no seu início que está a placa que serve de alerta aos motoristas antes acostumados a trafegar por ali.
Do outro lado da ponte, no entanto, pela Rua Miguel Francisco Pereira, não raro algum desavisado vê-se obrigado a dar meia-volta e encarar, enfim, o movimento da SC-100, que se torna mais exacerbado com o verão.
O engano se justifica. Na SC-100, no trevo em frente à Cysy Mineração, uma placa de sinalização viária indica uma rota para Tubarão pelo Riacho dos Franciscos. Sem aviso de que não há mais ponte, muitos encaram a estrada – até descobrirem que estão em um literal beco sem saída.
Idas para Tubarão mais longas
“Muita gente vem até aqui para passar na ponte. No verão, que chega a engarrafar na rodovia, o pessoal vem até aqui e tem que voltar. Uns pedem informação, outros não. Semana passada veio um grupo de ciclista para passar aqui. Um rapaz brincou e disse que queria chorar quando viu que não tinha mais ponte”, conta José Pereira enquanto capina a roça no quintal de casa. Está com 56 anos e, desde sempre, mora ali, vizinho ao riacho.
Ele conta que, sem ponte, as idas para Tubarão, por exemplo, ficaram mais longas. “Agora tem que dar a volta. Antes aqui era a metade da viagem. Onde tem rio, tem ponte. Só aqui que não”, comenta o morador diante da situação contraditória de morar em frente a um atalho que não pode ser usado por falta de acesso. Esta é a mesma situação do agricultor Lídio Durante, de 82 anos, que mora no Riacho dos Franciscos desde os idos de 1973.
“Sem a ponte está complicado. Temos terreno no outro lado. Aí faço uma volta de sete quilômetros para chegar no local, na Garopaba do Sul. Se tivesse ponte, eu levava só 15 minutos. Agora são 45 minutos de trator, porque preciso fazer um contorno”, reclama. O agricultor apresenta também um dado histórico: “Isso aqui é a primeira ponte da primeira estrada que ligou Tubarão e Jaguaruna para Laguna. Foi a primeira ligação desses municípios”.
Interditada em agosto de 2017
Entre uma reforma e outra, a ponte foi definitivamente interditada em meados de agosto de 2017. Antes disso, ainda permitia a passagem de veículos leves, uma vez que ônibus e caminhão já estavam proibidos de trafegar no local. Na época, o município alegou que o bloqueio total atendia a uma recomendação da Defesa Civil em razão da segurança para os usuários. Afirmou-se que a prefeitura estava em busca de recursos para a construção de uma ponte de concreto, o que, com o perdão do trocadilho, nunca se concretizou.
“É preciso tomar providência”, pede agricultor, que está no Riacho dos Franciscos desde 1973
“Lembro como se fosse hoje”, diz José Pereira. “Na enchente fizeram a maior palhaçada”, comenta Lídio Durante, por sua vez. Ambos se referem ao que se deu com a ponte após as cheias do final de maio de 2019. Eles alegam que a estrutura de madeira, em situação precária, foi derrubada pelo governo municipal de então. “Vieram aqui, meteram uma S90 e derrubaram o resto. Acharam que iriam ganhar uma ponte nova”, conta Durante. “Botaram as madeiras na água para dizer que foi a enchente. Ainda pedi umas tábuas, mas não deram”, recorda-se Pereira.
Moradores comentam que nem todos na vizinhança querem a construção de uma nova ponte porque, com ela, voltaria também o movimento mais intenso de veículos.
Comunidade entre um projeto de pavimentação e o kit de transposição da Defesa Civil
Os próximos meses podem ser mais auspiciosos para a comunidade do Riacho dos Franciscos. O atual prefeito de Jaguaruna, Laerte Silva, afirmou que o município solicitou à Amurel o projeto para pavimentação daquela estrada, o qual também contempla a construção de uma ponte sobre o canal.
Procurado por moradores do bairro, o vereador Sergio Bitencourt sugeriu a elaboração de um abaixo-assinado. Quatro semanas depois, ele apresentou a documentação ao chefe da Defesa Civil do Estado, David Busarello. O governo disponibiliza kit de transposição aos municípios, mas com a condição de que estes executem as cabeceiras no caso de vãos superiores a 18 metros. É o caso do Riacho dos Franciscos, em Jaguaruna.
“Me comprometi com ele de fazer o levantamento. Se a prefeitura não fizer, eu, como engenheiro, vou fazer o levantamento. É competência do município fazer as cabeceiras, ou se faz de concreto ou de pedra. O município faz, e o Estado dá o kit. Para ganhar a ponte, tem que executar a cabeceira. E se não fizer vou cobrar do prefeito”, promete o vereador.