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COLUNISTAS

Corpos distantes, telas próximas: o silêncio do tato

05/05/2026 22h06 | Atualizada em 05/05/2026 22h06 | Por: Marcos Madeira

Olhamos para o mundo através de um retângulo de vidro que promete nos conectar a tudo, mas que, ironicamente, muitas vezes nos isola do que é essencial. Por isso, faço a pergunta: quando foi a última vez que você olhou nos olhos de alguém sem a pressa de conferir uma notificação?

As redes sociais criaram o que o sociólogo Zygmunt Bauman chamou de “Modernidade Líquida”. Nossas relações tornaram-se frágeis, conexões que podem ser desfeitas com um clique. O problema é que o cérebro humano não foi projetado para a superficialidade. Enquanto acumulamos “curtidas”, perdemos a substância. O afeto virou métrica e a validação externa tornou-se a moeda de troca da nossa autoestima.

O psicólogo Abraham Maslow, em sua famosa pirâmide de necessidades, coloca o pertencimento e o amor como pilares fundamentais. Mas o que temos é o “pertencimento digital”. Ele oferece a imagem da companhia, mas não o calor da presença. A satisfação momentânea nos deixa desnutridos emocionalmente, por isso, devemos priorizar pessoas, não redes.

Mas a mudança não acontece no campo do algoritmo. Ela exige o silêncio compartilhado, a escuta ativa e a vulnerabilidade de estar presente por inteiro. As redes sociais nos treinam para a performance, para mostrar apenas o “eu” editado. Mas é nas imperfeições e no cotidiano sem filtro que o amor e a amizade criam raízes. Priorizar o outro é um ato de resistência à pressa contemporânea. 

Ainda há tempo para escolher o diálogo em vez do comentário, o abraço em vez do emoji. Então, guarde o celular, mas não guarde as palavras. O mundo acontece lá fora, no espaço sagrado entre você e o outro. Afinal, a vida é feita de momentos que nenhuma câmera consegue capturar totalmente, mas que o coração jamais esquece.

Que saibamos, enfim, ser jardineiros de presenças em vez de colecionadores de ausências digitais. Pois, no entardecer da vida, não serão as notificações que aquecerão nossa memória, e sim o rastro dos afetos que cultivamos no mundo real. Afinal, a conexão mais importante ainda não tem Wi-Fi: chama-se humanidade.

“O encontro de duas pessoas é como o contato de duas substâncias químicas: se houver alguma reação, ambas se transformam.” - Carl Jung

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