O futebol é o sintoma, a doença é o nosso individualismo
A eliminação na Copa do Mundo não ficou só no campo da derrota. Mostra o diagnóstico de uma neurose coletiva. Ver o Brasil cair é o reflexo exato do que acontece fora das quatros linhas: gente com asas para voar alto, mas que prefere se arrastar em picuinhas cotidianas. Nações desenvolvidas plantam o capital humano para colher cidadania e esporte; nós nos tornamos reféns do imediatismo. O brasileiro hoje prefere a ilusão de um palpite nas plataformas de apostas ou o veneno das brigas políticas mesquinhas a estruturar projetos de futuro. Perdemos a capacidade do diálogo sério em todas as esferas. Não queremos debater, queremos apenas esbravejar.
A Noruega preparou uma Seleção nacional para honrar sua bandeira, enquanto nós reduzimos o futebol a um balcão de negócios em que vencer virou detalhe. Em outros cantos do mundo, o dinheiro também corre, mas caminha lado a lado com o compromisso de representar bem a pátria de origem. Por aqui, falta pertencimento e sobra mercantilização. No fim dessa engrenagem fria, os atletas voltam ao luxo de seus clubes, e quem herda a solidão da derrota é o povo, desolado no sofá de casa.
Enquanto a massa se anestesia com o besteirol digital das redes sociais, a confederação de futebol, mercantilista até a medula, gerencia nossa paixão como se fosse mero produto de prateleira. Esquecemos que o manto sagrado da Seleção exige entrega, e não apenas vitrine.
Queremos o hexa? Claro. Mas, antes, precisamos resgatar a nossa alma coletiva, e não só no futebol. Este país é um celeiro fértil de cientistas, professores, jogadores e profissionais viscerais; não somos nem nunca seremos vira-latas. Para voltar a ter orgulho da amarelinha, precisamos primeiro reconstruir uma nação séria, que valorize sua gente, e parar de terceirizar a própria dignidade para os algoritmos da internet. O Brasil só voltará a ser campeão quando o brasileiro decidir entrar em campo para vencer com união e resiliência, não só no futebol, mas em todos os setores da sociedade.
Marcos Madeira
Um espaço para explorar os mistérios da mente humana, compreendendo comportamentos, emoções e pensamentos que nos movem.
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