Olhamos para o mundo através de um retângulo de vidro que promete nos conectar a tudo, mas que, ironicamente, muitas vezes nos isola do que é essencial. Por isso, faço a pergunta: quando foi a última vez que você olhou nos olhos de alguém sem a pressa de conferir uma notificação?
As redes sociais criaram o que o sociólogo Zygmunt Bauman chamou de “Modernidade Líquida”. Nossas relações tornaram-se frágeis, conexões que podem ser desfeitas com um clique. O problema é que o cérebro humano não foi projetado para a superficialidade. Enquanto acumulamos “curtidas”, perdemos a substância. O afeto virou métrica e a validação externa tornou-se a moeda de troca da nossa autoestima.
O psicólogo Abraham Maslow, em sua famosa pirâmide de necessidades, coloca o pertencimento e o amor como pilares fundamentais. Mas o que temos é o “pertencimento digital”. Ele oferece a imagem da companhia, mas não o calor da presença. A satisfação momentânea nos deixa desnutridos emocionalmente, por isso, devemos priorizar pessoas, não redes.
Mas a mudança não acontece no campo do algoritmo. Ela exige o silêncio compartilhado, a escuta ativa e a vulnerabilidade de estar presente por inteiro. As redes sociais nos treinam para a performance, para mostrar apenas o “eu” editado. Mas é nas imperfeições e no cotidiano sem filtro que o amor e a amizade criam raízes. Priorizar o outro é um ato de resistência à pressa contemporânea.
Ainda há tempo para escolher o diálogo em vez do comentário, o abraço em vez do emoji. Então, guarde o celular, mas não guarde as palavras. O mundo acontece lá fora, no espaço sagrado entre você e o outro. Afinal, a vida é feita de momentos que nenhuma câmera consegue capturar totalmente, mas que o coração jamais esquece.
Que saibamos, enfim, ser jardineiros de presenças em vez de colecionadores de ausências digitais. Pois, no entardecer da vida, não serão as notificações que aquecerão nossa memória, e sim o rastro dos afetos que cultivamos no mundo real. Afinal, a conexão mais importante ainda não tem Wi-Fi: chama-se humanidade.
“O encontro de duas pessoas é como o contato de duas substâncias químicas: se houver alguma reação, ambas se transformam.” - Carl Jung
O espaço comum de debate e construção do diálogo foi substituído pelo feed. A política, antes um campo de projetos coletivos, transformou-se em um palco de entretenimento. Quando políticos se tornam criadores de memes e influenciadores, ignoram a complexidade do social em favor do engajamento; o impacto no psiquismo individual e coletivo é profundo.
O primeiro sintoma é a fragmentação da atenção e do pensamento. Quem alerta é o pai da psicanálise, Sigmund Freud. Em “Psicologia das Massas e a análise do eu”, Freud reforça que “o indivíduo, ao se fundir à massa (ou à “bolha” digital), abre mão de sua consciência crítica em favor de uma identificação afetiva com o líder ou com o grupo”.
No extremismo atual, que gira o globo, essa identificação é reforçada pelo ódio ao “outro”, gerando um estado de alerta constante e ansiedade paranoide (sentimentos intensos de pensamentos de desconfiança ou perseguição). Já a falta de consciência e de projetos políticos reais nos leva para o que o psicanalista Donald Winnicott chamaria de uma vida pautada no “Falso Self” (um falso eu, ou uma máscara para se proteger ou esconder-se de alguém ou algo). O indivíduo deixa de ser um cidadão para ser somente um espectador.
Sem um projeto pautado na diversidade que nos cerca, nesse Brasil de complexidade cultural, a sociedade adoece por desamparo. Quando a política não oferece segurança e a sensação de um futuro minimamente estável, o resultado é o aumento de quadros depressivos e a sensação de vazio existencial.
O que vemos na atualidade são discursos digitais sem noção da “pólis”, promovendo uma perigosa infantilização do debate. Em vez de lidarmos com a alteridade, buscamos o espelhamento narcísico. Para o psicanalista Jacques Lacan, “o desejo é sempre o desejo do Outro”. No mundo da era digital, esse “Outro” pode ser apenas uma projeção de nossos próprios preconceitos. A consequência é uma sociedade exausta, polarizada e emocionalmente desregulada.
Nesse contexto, o desafio da psicologiasocial é ajudar o sujeito a recuperar sua autonomia, saindo do transe algorítmico para reencontrar o sentido da coletividade e da responsabilidade política como ferramentas de transformação e saúde mental.
“O homem é, por natureza, um animal político” - Aristóteles
Vivemos na era da vitrine psíquica, pois, ao abrir qualquer rede social, somos bombardeados por vídeos que prometem diagnosticar, entre filtros e curtidas, transtornos como TDAH ou burnout. O que antes exigia investigação clínica, hoje parece resolvido pelo algoritmo. Mas precisamos questionar: estamos ficando doentes ou apenas reagindo a um mundo sem empatia?
Como pontuou Sigmund Freud, “a ciência moderna ainda não produziu um medicamento tão eficaz quanto umas poucas palavras bondosas”. O problema é que, no digital, as palavras são reducionistas. O jovem, sedento por pertencimento, encontra no rótulo um refúgio. É comum ouvirmos e até falarmos “sou ansioso”. É mais fácil oferecer uma identidade pronta em um mundo de incertezas.
Todavia, há um perigo na patologização de tudo: estamos transformando dores legítimas da alma em códigos de doenças, ignorando que o sofrimento pode ser fruto de uma cultura exaustiva e da escassez de amor. O psiquiatra Karl Jaspers defendia que a psicopatologia deve compreender a subjetividade, e não apenas catalogar sintomas. Quando nos autodiagnosticamos via TikTok, atropelamos nossa história, e o resultado pode ser trágico!
Muitas vezes, a tristeza não é depressão, é a falta de espaço para ser ouvido. A agitação não é TDAH, é o reflexo de uma sociedade que não respeita o tempo do outro. Ao rotularmos cada desejo ou angústia, podemos estar silenciando o que o filósofo e psicanalista Erich Fromm chamava de “a arte de amar”, ou seja, a capacidade de enxergar o outro com respeito e paz.
O indivíduo performa sintomas para ser validado, enquanto a verdadeira causa - por exemplo, a falta de acolhimento e a pressão por produtividade - permanece intocada. É de fato um paradoxo atual: nunca se falou tanto de saúde mental, mas nunca fomos tão analfabetos no cuidado básico com o próximo. Se em outrora não reconhecíamos as doenças emocionais como preocupação de saúde pública, hoje banalizamos sintomas e diagnósticos!
A cura não vem de um rótulo colado por um algoritmo e de “achismo”, e sim do resgate da humanidade. Antes de medicar uma tristeza, precisamos olhar para o ambiente: há paz? Há respeito ao desejo do outro? A psicologia deve ser a ponte para a liberdade, não uma cela feita de termos técnicos para esconder a nossa falta de afeto.
“Uma reação anormal a uma situação anormal faz parte de um comportamento normal” - Viktor Frankl
Recentemente dados do IBGE e de órgãos de saúde acenderam um alerta vermelho: a tristeza persistente e a ansiedade entre crianças e adolescentes no Brasil atingiram níveis recordes em 2026. Não se trata apenas de uma “fase” ou “rebeldia”, mas de um fenômeno profundo que exige um olhar urgente de toda a sociedade. Mas, afinal, de quem é a responsabilidade?
A resposta é complexa, pois vivemos em uma rede de influências. No centro da discussão, está o excesso de telas. O mundo digital, que deveria conectar, tem isolado. A comparação constante com vidas irreais no Instagram e a dependência de algoritmos estão moldando cérebros ainda em formação, gerando uma busca incessante por aprovação que nunca se satisfaz.
Nesse cenário, a responsabilidade dos pais e responsáveis é a de serem “âncoras”. Mais do que proibir o celular, é preciso oferecer presença real. O acolhimento emocional dentro de casa é o primeiro filtro contra a depressão. Ouvir sem julgar e validar os sentimentos dos jovens são passos fundamentais.
Por outro lado, o Estado tem o dever de tratar a saúde mental como prioridade de saúde pública. Isso passa diretamente pela mudança no ambiente escolar. A escola não pode mais ser apenas um depósito de conteúdos acadêmicos e fórmulas, ela precisa se transformar em um espaço de segurança emocional.
O foco na saúde mental deve estar no currículo, com psicólogos presentes e professores capacitados para identificar sinais de isolamento ou automutilação antes que o quadro se agrave. É bom deixar claro que não adianta procurar culpados, temos que ir em busca de soluções. A tristeza da juventude é sintoma de uma sociedade exausta. Se as crianças estão tristes, é porque o ambiente que construímos para elas está adoecendo.
O Estado deve garantir políticas públicas e suporte, a escola deve acolher a subjetividade, e a família deve ser o porto seguro. Cuidar da mente dos nossos jovens não é um luxo, é uma urgência. Precisamos desconectar um pouco das redes para reconectar com quem está ao nosso lado. Afinal, uma infância sem cor gera um futuro sem brilho.
“O principal objetivo da educação é criar pessoas capazes de fazer coisas novas, e não simplesmente repetir o que as outras gerações fizeram. E isso começa pelo cuidado com o sentir.” (Jean Piaget)
Neste mês de abril, celebramos 25 anos da Lei Paulo Delgado (lei 10.216), que representa um marco histórico da Reforma Psiquiátrica brasileira. A partir dessa data, o país escolheu o caminho da dignidade, substituindo o horror dos manicômios e o isolamento pelo tratamento em liberdade. Saímos dos muros altos e fomos para os CAPS (Centros de Atenção Psicossocial), residências terapêuticas e para o convívio comunitário.
Mas, ao olharmos para o retrovisor, percebemos que, embora tenhamos derrubado as grades de ferro, novas “prisões invisíveis” surgiram no tecido da nossa sociedade.
Hoje, o desafio da saúde mental transbordou os consultórios. Vivemos o fenômeno do adoecimento coletivo. Basta observar o trânsito: buzinadas agressivas e brigas por motivos banais revelam um pavio curto generalizado. Vivemos na era da “correria” institucionalizada, em que estar ocupado é sinal de status e descansar gera culpa. A ansiedade deixou de ser um sintoma isolado para se tornar o filtro pelo qual enxergamos o mundo.
Nessa dinâmica, a bolha digital desempenha um papel cruel. As redes sociais vendem vidas impecáveis, enquanto o algoritmo nos mantém presos a telas que aceleram nossos pensamentos e fragmentam nossa atenção. Naturalizamos o cansaço extremo, o sono ruim e a irritabilidade como “coisas da vida moderna”. O problema é que, em uma sociedade que corre sem saber para onde, o indivíduo dificilmente conseguirá manter sua saúde emocional em dia.
Os CAPS e a rede pública são fundamentais e salvam vidas diariamente, mas eles não podem ser os únicos responsáveis por uma “cura” que é, em grande parte, social. Precisamos de um olhar especial sobre como estamos vivendo. Saúde mental não é apenas ausência de transtorno diagnosticado; é ter tempo para o ócio, é segurança nas ruas, é o fim da cultura do imediatismo e a desconexão consciente do digital.
O fim dos manicômios foi uma vitória política e humana gigantesca. Agora, a nova reforma precisa acontecer no nosso estilo de vida. Precisamos humanizar as cidades, desacelerar as expectativas e entender que uma sociedade doente jamais produzirá indivíduos plenamente saudáveis. Que os próximos 25 anos sejam dedicados a construir não apenas serviços de saúde, mas uma cultura de paz e presença que nos permita, finalmente, respirar com calma.

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