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COLUNISTAS

Imposto emocional: o custo de ser civilizado

31/03/2026 21h57 | Atualizada em 31/03/2026 21h57 | Por: Marcos Madeira

Você já teve aquela sensação de “check-list completo”? Emprego, boletos pagos, Wi-Fi rápido, e, mesmo assim, um vazio no peito? Pois é, o pai da psicanálise, Sigmund Freud, quando escreveu “O Mal-Estar na Civilização”, já dava o spoiler. A gente troca nossa liberdade selvagem pela segurança de viver em sociedade. O problema é que essa troca gera um “imposto emocional” caro: a repressão dos nossos desejos em nome da ordem.

No dia a dia, isso aparece no cansaço de fingir que está tudo bem, mas nos ‘stories’ a ansiedade aperta. É o que o filósofo Byung-Chul Han chama de “Sociedade do Cansaço”. Sabe aquela pressão de ser produtivo 24 horas por dia? Pois é, viramos nossos próprios feitores. O psicólogo Viktor Frankl dizia que a busca desenfreada pelo prazer gera frustração. Ele estava descrevendo exatamente esse ciclo, em que a gente compra, posta e consome, mas o sentido da vida continua escapando entre os dedos.

O quadro piora quando olhamos para o lado. O “mal-estar” moderno nos deixou impacientes. A gente não ouve mais para entender, mas para responder. É a falta de interpretação de texto (e de contexto) que vemos nos comentários de portais de notícias. Autoridades tomam decisões como se fôssemos números, ignorando que, na ponta final, existe uma mãe preocupada ou um trabalhador exausto. Essa falta de empatia gera o que Zygmunt Bauman chamava de “relações líquidas”: conexões frágeis que se quebram no primeiro desacordo.

Nesse vácuo de compreensão, o extremismo (em todos os sentidos) vira o “canto da sereia”. É muito mais fácil culpar um grupo específico ou aceitar respostas prontas do que lidar com a complexidade do mundo. O ódio vira um atalho para quem está desesperado. O alerta vem do filósofo e psicanalista Erich Fromm, que diz o seguinte: “o medo da incerteza nos faz querer fugir da liberdade e abraçar figuras autoritárias que prometem ordem, mas entregam divisão”.

Mas calma, nem tudo está perdido. Reconhecer esse mal-estar é o primeiro passo para minimizar as mazelas da sociedade. Freud reforça que o foco é a “redução do sofrimento”. Talvez a saída seja desacelerar. Menos julgamento no teclado e mais olho no olho. Menos perfeição estética e mais verdade. No fim das contas, a gente não precisa de respostas simplistas, mas de coragem para ser humano em um mundo que insiste em nos transformar em máquinas sem coração e empatia.

Que as regras nos tragam ordem, mas que nunca nos roubem a liberdade de sentir. Afinal, a vida acontece no equilíbrio entre o que o mundo exige e o que a nossa alma precisa.

O despertar do Pai feroz e o silêncio da prevenção

24/03/2026 23h05 | Atualizada em 24/03/2026 23h05 | Por: Marcos Madeira

Em março de 1974, as águas não apenas subiram, elas rugiram! Tubarão, a Cidade Azul, foi tingida pelo barro de uma tragédia que ainda ecoa no inconsciente coletivo de Santa Catarina. 

O rio, cujo nome ancestral “tuba-nharô” significa “pai feroz”, reivindicou seu leito com uma fúria que deixou cicatrizes profundas.

Hoje, décadas depois, olhamos para as águas e nos perguntamos: o que aprendemos?

Anualmente, seminários são realizados para marcar a data da calamidade. No entanto, para quem vive a realidade clínica e observa a gestão pública, fica um amargo questionamento: seriam esses encontros meros ritos de passagem, vazios de resolutividade? A efetividade de ações robustas para minimizar novos desastres parece flutuar em um horizonte distante, enquanto a região da Amurel segue vulnerável sob a promessa de projetos que tardam a sair do papel.

Para a psicologia, o trauma de um desastre dessa magnitude não se esvai com a vazante do rio. Ele se torna um “trauma geracional”. Vimos isso recentemente no Rio Grande do Sul e nas tragédias recorrentes na Zona da Mata mineira. Existe uma ansiedade antecipatória que se manifesta a cada nuvem carregada. É o que chamamos dentro de um contexto psicológico de “transtorno de estresse pós-traumático” (TEPT) coletivo. É tão profundo que o som da chuva deixa de ser acalento para virar gatilho de pânico. A vida emocional das pessoas fica suspensa, e a casa, que deveria ser o refúgio seguro, torna-se uma armadilha potencial.

A psicologia moderna das emergências e desastres aponta que a intervenção não deve ser apenas paliativa, mas estrutural. Como destaca a psicóloga Maria Helena Franco, referência no estudo do luto e crises: “o desastre rompe a previsibilidade da vida e o sentimento de segurança no mundo”. Sob essa ótica, a falta de medidas preventivas por parte do Estado é, em si, um fator de adoecimento mental, pois mantém a população em um estado de “alerta constante”, impedindo o fechamento simbólico do luto e a reconstrução da confiança no ambiente onde se vive. 

A resiliência não nasce do esquecimento, mas do preparo. Negar a força do “Pai feroz” é um erro fatal. Ele respira sob as pontes, lembrando-nos de nossa finitude e da urgência de uma infraestrutura que honre a vida. Será que a região está realmente preparada? Ou estamos apenas esperando que a poesia da memória nos salve de uma realidade que exige técnica, coragem política e cuidado preventivo? O tempo corre como as águas: indiferente à nossa inércia, ele é implacável em sua natureza.

O troféu da quarta-feira: segura que a sexta chega!

17/03/2026 21h06 | Atualizada em 17/03/2026 21h06 | Por: Marcos Madeira

A quarta-feira costuma ser o “divisor de águas” da nossa semana. A pressão da segunda-feira já se dissipou e o alívio da sexta ainda parece distante. É justamente nesse hiato, entre o café requentado e os boletos a pagar, que a nossa mente prega peças. Olhamos para o lado, ou melhor, para as telas, somos inundados por imagens de sucesso, corpos esculpidos e vitórias estrondosas.

O mundo parece viver em um eterno tapete vermelho, enquanto nós estamos apenas tentando terminar o expediente. Na psicologia, chamamos isso de Comparação Social Ascendente. Segundo o psicólogo social Leon Festinger, temos uma tendência inata de avaliar nossas próprias capacidades e status comparando com os outros. 

O problema é que, na era digital, a comparação não é com o vizinho, mas com o “melhor momento” editado de milhões de pessoas, que muitas vezes nem conhecemos. O resultado? Uma sensação persistente de que estamos ficando para trás. Por isso, precisamos falar sobre a “tirania da excepcionalidade”, pois fomos condicionados nos últimos anos a valorizar só aquilo que brilha, que é premiado ou que viraliza. 

No entanto, a saúde mental reside na capacidade de encontrar sentido no comum. O psicanalista Donald Winnicott nos mostra um conceito libertador: o de ser “suficientemente bom”. Para ele, não precisamos da perfeição ou do aplauso constante para ter uma vida psíquica saudável. Na verdade, precisamos de presença, de cuidado real e da aceitação de nossas imperfeições.

Viver psicologicamente bem na quarta-feira exige uma espécie de “reabilitação do olhar”. É entender que os bastidores da vida, como aquele cansaço, a dúvida, a falta de direção ou simplesmente a louça na pia, não são sinais de fracasso, mas a própria matéria-prima da existência humana. A busca incessante pela validação externa é um poço sem fundo. A verdadeira estatueta de ouro é a paz de espírito de quem não precisa provar nada a ninguém.

Portanto, se hoje você não recebeu nenhum prêmio, se sua rotina parece cinza ou se o cansaço bateu mais forte, se acolha. A psicologia nos ensina que a vida não acontece nos grandes palcos, mas na suavidade com que tratamos a nós mesmos quando ninguém está olhando. 

Que tal trocar a comparação pela autocompaixão hoje? Afinal, chegar ao meio da semana com a mente sã já é a maior vitória.

“Quem olha para fora, sonha; quem olha para dentro, desperta.” - Carl Jung

Crise climática na mente

10/03/2026 21h53 | Atualizada em 10/03/2026 21h53 | Por: Marcos Madeira

Você já sentiu aperto no peito ao ver o céu escurecer de fumaça ou ao ler sobre mais uma enchente devastadora? Se a resposta for sim, saiba que você não está sozinho. O que antes era tema apenas de jornais de ecologia, agora é pauta urgente nos consultórios de psicologia. Estamos vivendo a era da “eco ansiedade”.

Não precisamos ir longe para entender o peso disso. Para nós, brasileiros, a tragédia climática em Minas Gerais é uma ferida aberta. Ver cidades históricas e comunidades inteiras reféns da força das águas ou do rastro de lama não gera apenas prejuízo material; gera trauma coletivo. 
Quando o ambiente que chamamos de “lar” se torna ameaça, nossa base de segurança psicológica desmorona.

A eco ansiedade não é uma doença, mas uma resposta emocional legítima a uma ameaça real. Como define a psicóloga americana Sarah Lowe, “a ansiedade climática não é um distúrbio, é uma reação racional a um mundo em crise”. O problema é quando esse medo vira paralisia. Em Minas, o luto pelas perdas e o medo do próximo evento climático criam um estado de alerta constante, um estresse pós-traumático que se renova a cada chuva forte.

O psicólogo britânico e pioneiro na eco psicologia Robert Clive sugere que o segredo não é ignorar o medo, mas integrá-lo. “Precisamos transformar o desespero passivo em esperança ativa”, diz ele. Isso significa aceitar que o mundo mudou, mas também entender que nossa saúde mental depende da nossa capacidade de agir, mesmo que em pequena escala.

Então fica a dica: valide seu sentimento. Se você sente medo pelo futuro do planeta ou tristeza pelas tragédias climáticas, isso mostra que você ainda está conectado com a vida. A negação é o pior caminho. Vá ao encontro da comunidade, converse sobre esses medos, participe de redes de apoio, busque informações oficiais e preserve hábitos sustentáveis. 

Essas dicas ajudam a retomar o senso de controle. Cuidar da mente agora exige olhar para fora da janela. Afinal, não existe bem-estar individual em um planeta que pede socorro! Que tal começar transformando esse aperto no peito em um primeiro passo de cuidado com você e com o que está ao seu redor?

“Não podemos ser saudáveis em um planeta doente.” - James Hillman

Para além de Ophelia: educar os meninos

03/03/2026 21h56 | Atualizada em 03/03/2026 21h56 | Por: Marcos Madeira

Se o Dia Internacional da Mulher é um marco de resistência, ele precisa ser, também, um dia de revisão da masculinidade. Afinal, de nada serve celebrar as conquistas femininas se não educarmos as mãos que as ameaçam. A verdadeira homenagem não está nos parabéns, mas na lousa que ensina meninos de que a força nunca deve ser sinônimo de dominação.

O feminicídio não começa com um gatilho ou uma lâmina; um “psiu” basta, depois o controle disfarçado de cuidado, uma estrutura milenar que ensinou homens a possuir, restando às mulheres servir. Para entender o que acontece hoje nas manchetes policiais, lançamos um olhar para Ophelia, a personagem de Shakespeare em Hamlet. Ela não morreu apenas por amor, ela morreu porque foi sufocada pelas expectativas dos homens ao seu redor: pai, irmão e amante. Ophelia é o símbolo histórico da mulher que se despersonaliza até perder o chão.

Essa “sina de Ophelia” nos fala sobre a representação do sistema patriarcal; uma engrenagem que esconde a violência sob o manto da tradição. O machismo mais perigoso não é apenas o grito, mas o silêncio “escondido” nas piadas de grupo de WhatsApp e na ideia de que “homem não chora”. É aqui que a psicologia entra para nos dar um choque de realidade.

No meio desse labirinto, o psicanalista Donald Winnicott nos ensina sobre a importância do “ambiente facilitador”. Se a família e a escola falham em ser esse ambiente, o menino cresce acreditando que para ser homem ele precisa dominar. O “complexo de superioridade” é uma máscara para uma profunda insegurança. O agressor, em sua essência, é alguém que não aprendeu a lidar com a própria fragilidade e projeta no controle sobre a mulher a sua falsa força. 

A solução para quebrarmos a trágica história de Ophelia não se limita apenas a leis mais rígidas - embora elas sejam fundamentais, como o movimento Maria da Penha e as frentes de proteção atuais. A verdadeira revolução é educacional. Precisamos levar o debate para o pátio da escola. É necessário ensinar aos meninos que a masculinidade não é um trono de posse, mas uma construção de respeito.

Se não ensinarmos os pequenos a reconhecerem a autonomia das meninas como valor sagrado, continuaremos apenas enxugando o sangue de um chão que o patriarcado insiste em molhar. A violência contra a mulher é um crime contra a humanidade. E a cura desse mal escondido começa no diálogo e na coragem de dizer que o “destino” de nenhuma mulher deve ser escrito pela mão de um homem que não aprendeu a ser humano.

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