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COLUNISTAS

O peso do mundo na mente: por que estamos tão cansados?

16/06/2026 22h38 | Atualizada em 16/06/2026 22h38 | Por: Marcos Madeira

Já percebeu como a gente vive correndo, mesmo sem saber exatamente onde quer chegar? A verdade nua e crua é que o sofrimento emocional não é um defeito de fábrica da sua cabeça. Ele é um eco do mundo acelerado e exigente que construímos ao nosso redor. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), o Brasil lidera os índices de ansiedade porque o nosso estilo de vida virou uma máquina de moer paciência e energia.

Hoje em dia, a gente compra remédio, faz terapia e lê posts sobre autocuidado. Mesmo assim, o vazio e o esgotamento continuam crescendo.

O psicanalista Christian Dunker explica que a sociedade atual funciona em uma lógica de competição feroz. Nós fomos ensinados a gerenciar a própria vida como se fôssemos uma empresa. Se você cansa ou adoece, o sistema faz você se sentir culpado, como se faltasse apenas “foco e esforço”. Essa cobrança invisível e silenciosa gera um estado de alerta que destrói qualquer paz de espírito.

A gente trabalha até a exaustão achando que está buscando o sucesso pessoal. O resultado dessa conta que não fecha é ansiedade e a depressão, sem falar de outras doenças emocionais. O cansaço virou a nossa moeda de troca para conseguir sobreviver. 

Quem sofre precisa, sim, de acolhimento médico e psicológico de qualidade. Mas a solução real passa por humanizar o dia a dia. Precisamos resgatar o direito ao descanso, ao lazer sem culpa e às conexões reais de amizade. Cuidar da mente não é só uma tarefa individual. É um pacto coletivo para criar uma vida em que a dignidade venha antes da produtividade.

Complexo de vira-lata: o que a Copa do Mundo tem a ver com isso?

09/06/2026 22h14 | Atualizada em 09/06/2026 22h14 | Por: Marcos Madeira

Em 1958, o dramaturgo Nelson Rodrigues cunhou a expressão “Complexo de vira-lata” para descrever a inferioridade em que o brasileiro se coloca voluntariamente diante do mundo. Uma derrota no futebol fez Rodrigues usar essa expressão após o Brasil perder para o Uruguai em pleno Maracanã em 1950. O Brasil foi campeão mundial em 58 e 62. Mesmo assim, o fantasma uruguaio ainda rondava os brasileiros.

Mas foi na Copa de 1970 que esse fantasma foi vencido de forma definitiva. Naquele ano, sob a desconfiança de que o futebol europeu havia superado a nossa técnica, a seleção de Pelé deu um baile tático e artístico. O tri no México não foi apenas um título esportivo, foi uma cura psicológica coletiva: provamos que a nossa criatividade e a nossa essência eram invencíveis. O problema é que a nossa autoconfiança social ainda oscila. Hoje, às vésperas de mais uma Copa do Mundo, esse velho fantasma parece rondar não apenas os gramados, mas a nossa sociedade.  

Do ponto de vista psicológico, esse comportamento mina a nossa autoestima coletiva. Quando acreditamos que o bom é sempre o outro, sabotamos nossa autoconfiança dentro e fora das quatro linhas. Para piorar, o país se vê fragmentado em extremos políticos, nos fazendo esquecer três características que estão no nosso DNA: a união, a força e a resiliência. Em vez de canalizarmos nossa energia para construir pontes, nos dividimos em bolhas de desconfiança. A psicóloga Brené Brown afirma que “o oposto da solidão não é a união, é o pertencimento. Sentir-se parte de algo maior do que nós mesmos é o que nos dá coragem para enfrentar o mundo”.

Nesse sentido, com a Copa o sentimento de pertencimento ganha nova roupagem. A amarelinha volta a ser símbolo de identidade e afeto, independente de posturas políticas. A verdadeira força do brasileiro está na capacidade de sorrir e se reerguer. A Copa do Mundo pode ser o gatilho emocional para lembrar que somos gigantes por natureza. Que possamos entrar em campo, na vida e na sociedade, de cabeça erguida, deixando o vira-latismo no passado e abraçando a esperança de um país unido e consciente do seu valor.

Uma reflexão psíquica na Semana do Meio Ambiente

02/06/2026 22h53 | Atualizada em 02/06/2026 22h53 | Por: Marcos Madeira

Celebrar a Semana do Meio Ambiente vai além de plantar árvores; envolve cuidar da nossa mente também, afinal, nós pertencemos a um ecossistema que envolve todos os seres vivos e o ambiente físico. Portanto, a crise climática atual não afeta apenas o planeta, mas também o nosso bem-estar psíquico. Fenômenos como o calor extremo e desastres ambientais aumentam os níveis de estresse e ansiedade global. Surge assim a urgência de falar sobre a eco ansiedade, o medo crônico da ruína ambiental.

Uma pesquisa pioneira publicada na renomada revista científica The Lancet entrevistou 10 mil jovens (de 16 a 25 anos) em 10 países: 84% dos entrevistados relataram estar pelo menos moderadamente preocupados com as mudanças climáticas, e 59% disseram estar muito ou extremamente preocupados.

O renomado psicólogo Erik Erikson afirmava que o indivíduo saudável precisa sentir que pertence e cuida do seu meio. Quando o ambiente adoece, nossa estabilidade emocional também é profundamente abalada. O sentimento de impotência diante das notícias cotidianas pode paralisar nossa rotina, gerando esgotamento silencioso.

A nossa saúde emocional está intimamente ligada ao que nos cerca, funcionando no meio externo como espelho e remédio para a nossa mente. Ambientes naturais atuam diretamente como reguladores do sistema nervoso, reduzindo os níveis de cortisol e o hormônio do estresse. O contato com a terra, o som do vento nas folhas e o visual verde da natureza ativam em nosso cérebro uma resposta imediata de calma e restauração cognitiva. Estar ao ar livre não é apenas um momento de lazer, mas uma necessidade biológica vital para desacelerar a mente hiperconectada das cidades. 

Quando nos desconectamos de forma drástica do meio natural, perdemos a nossa principal âncora de equilíbrio psicológico. Transformar o medo em atitude é o melhor remédio. Cultive hábitos sustentáveis, busque contato com a natureza e proteja seu espaço interno. E essa semana nos remete a refletir sobre o quanto nossa saúde emocional depende do meio ambiente preservado. Cuidar da Terra é, essencialmente, cuidar de si mesmo.

Fora das quatro linhas, perdendo o jogo para o vício

26/05/2026 22h45 | Atualizada em 26/05/2026 22h45 | Por: Marcos Madeira

Antes de tudo, obrigado à leitora e jornalista Letícia Matos, que sugeriu o tema. Sua provocação chegou na hora certa. A convocação do Neymar para a Copa 2026 mexeu com o Brasil. Mas, se esse time convocado por Carlo Ancelotti vai trazer a Copa, não dá pra dizer. Porém, uma certeza é incontestável: fora do campo já estamos perdendo por conta do adoecimento mental pelo vício do jogo.

Um levantamento feito pelo portal Bolavip Brasil revela que 8 em cada 10 patrocínios principais do futebol brasileiro são de bets. É a marca na camisa, no banner, no pré-jogo e no pós-jogo. Por outro lado, o Brasil joga sem VAR quando o assunto é adoecimento mental: 51% dos brasileiros que apostam relatam aumento de ansiedade e 42% usam a bet como fuga da vida real. Os dados são da Universidade Federal Fluminense e do Instituto Locomotiva. 

Fuga que vira labirinto: perdas, dívidas, desesperança e isolamento. O “joguinho” vira boleto, que vira depressão!

Em certa ocasião, conversei com um jovem de 17 anos que passou por um tratamento para transtorno do jogo. Ele me disse em uma conversa informal: “um dia perdi R$ 40 mil. Fiquei apavorado, me sentia ansioso, perdido, tinha que jogar todos os dias. Quando perdi esse valor, chamei meus pais e tive que passar por um tratamento. Entendi que era vício, pois meus pais eram bem de vida, não precisava jogar”.

Essa dor real, ouvida fora do ambiente clínico, prova que a angustia bate à nossa porta. O CID-11 E DSM-5, em Psicopatologia e Semiologia dos Transtornos Mentais, diz que o Transtorno do Jogo e de Apostas e Transtorno de Dependência da Internet “caracteriza-se por padrão persistente de comportamento de jogo no qual há prejuízo na capacidade e autocontrole”. 

Na economia do país, o “olé” ecoa forte: 1,3 milhão de brasileiros ficaram inadimplentes só no primeiro semestre de 2024 por causa de apostas on-line. A Confederação Nacional do Comércio (CNC) calcula que 22% da renda disponível das famílias foi para o jogo entre junho de 2023 e junho de 2024, ou seja, R$ 117 bilhões em faturamento por ano. 

É urgente a restrição de publicidade massiva das plataformas e a implementação de políticas públicas robustas de prevenção e tratamento ao transtorno do jogo.

Somente com ações que priorizem a saúde coletiva e a estabilidade socioeconômica será possível conter o endividamento sistêmico e mitigar a grave crise de saúde mental que afeta a população. 

Jogo causa dependência sim! E sem regra, sem limite e sem alerta decente, o apito final pode ser desastroso.

O divã do hexa: de Pelé a Neymar

19/05/2026 23h41 | Atualizada em 19/05/2026 23h41 | Por: Marcos Madeira

A lista saiu e o nosso divã esportivo está oficialmente lotado! A convocação de Carlo Ancelotti trouxe o pacote completo: a qualidade técnica inegável de Neymar Jr. e aquele combo de polêmicas que vem junto com o craque. Mas se engana quem pensa que misturar futebol e divã é coisa nova.

A nossa Seleção é pioneira nisso: desde a Suécia, em 1958, o Brasil trabalha a mente de seus atletas. Na época, o psicólogo João Carvalhaes chegou a vetar o jovem Pelé por achá-lo “infantil”. Sorte que a comissão não ouviu, o Rei jogou e fomos campeões. Agora, corta para o presente, e o desafio mental atende pelo nome de Neymar. 

Analisar o camisa 10 hoje é quase um estudo de caso. Por um lado, o cara mostrou resiliência ao superar uma grave lesão e lutar pelo ritmo no Santos. Por outro, os velhos gatilhos emocionais continuam lá. O descontrole ao ser substituído contra o Coritiba e a séria polêmica nos treinos com o jovem Robinho Jr. mostram que sua tolerância à frustração ainda é um campo minado. Ele convive com a marca de maior artilheiro da amarelinha e a de atleta polêmico.

Os rompantes ‘nervosos’ de Neymar costumam ser na psicologia um clássico mecanismo de defesa para esconder a vulnerabilidade. Quando o técnico Carlo Ancelott declarou que Neymar terá a mesma responsabilidade dos outros 25 e só jogará se merecer, o italiano deu uma aula de gestão terapêutica, pois, ao mesmo tempo que valida Neymar, também o coloca no mesmo grau de importância dos outros atletas convocados. O Mister quebrou a máxima na Seleção de eleger um “salvador da pátria”, jogando o peso do mundo nas costas de apenas um jogador. 

O técnico da Seleção simplesmente descentralizou o foco e dividiu a conta com o elenco. Ele sabe que blindar jovens como Endrick e gerenciar o ego de astros veteranos exigem inteligência emocional pura.

Como bem diz o renomado psicólogo esportivo João Ricardo Cozac: “o equilíbrio de uma equipe não se constrói blindando o atleta do mundo, mas ensinando-o a lidar com a frustração”. É nessa maturidade que mora a nossa esperança. Sob o comando de Don Carlo, o caminho para o hexa se conquista primeiro na mente para depois transbordar no campo.

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