Dia do Agricultor: A natureza no centro do negócio
Em uma propriedade passada de geração em geração, produtores optam pelos orgânicos para desenvolver uma agricultura sustentável
Quanto mais se avança morro acima pela estrada sinuosa, de chão batido, mais a Tubarão urbana vai ficando para trás.
Neste cenário cercado de verde e silêncio fica a propriedade da família de Rudmir Damian, o Miro, a qual se chega depois de cruzar um córrego e um caminho por entre a vegetação. Estes hectares de terra guardam também histórias e a memória de quem dedica a vida à agricultura, respeitando os ciclos e os tempos da natureza.
Enquanto a tarde cai, Miro, de 57 anos, vai tecendo o passado de sua família no campo, tendo como companheiros o cachorro bagunceiro, que vez ou outra vem brincar aos pés do dono, e o aparelho de som ligado na rádio local. Depois da morte do pai e a saída dos irmãos, que foram atuar em outras áreas, restou para ele e a mãe, Maria de Lourdes Cataneo Raldi Damian, 77, a tarefa de levar a produção agrícola adiante.
Era por volta de 1999 quando eles decidiram se aventurar por um novo caminho e passaram a se dedicar aos orgânicos, deixando para trás a lida dura do cultivo de fumo.
De uma área total de 23,9 hectares, incluídos aí trechos de reflorestamento e de preservação, onde é possível plantar extrai-se mais de 50 tipos de produtos, com o desafio de cultivar sem agrotóxicos e em terreno montanhoso.
“Às vezes o orgânico até produz mais, porque trabalha com desenvolvimento sustentável. Tem alguns sistemas em que você tira do solo e não consegue mais repor. Não existe agricultor sem solo. O solo é uma coisa viva, e o agricultor vive dali”, ensina Miro.
Na prática isso resulta em uma produção que oferece o que a terra dá conforme a época. Mas no sítio mãe e filho também se dedicam a resgatar sementes crioulas, aquelas que não foram alteradas como os transgênicos. É, portanto, um trabalho de preservação não só do meio ambiente, como do próprio passado.
Para a venda dos produtos, eles têm hoje dois pontos de comercialização: uma feira em pleno Centro de Tubarão nas manhãs de quinta-feira e a merenda escolar do município. Miro vibra com a ideia de ver as crianças consumindo alimentação segura e de qualidade. Nesse caso a família conta com a atuação de uma cooperativa, a Cooperazul, que reúne outros agricultores familiares como eles e entra na licitação da prefeitura para fornecer os produtos para 47 escolas.
Em um grupo no WhatsApp eles apresentam o que cada um pode entregar no momento, e a partir daí o município define o cardápio dos estudantes.
Muito disso vem de uma outra visão que os agricultores estão tendo sobre o próprio ofício. O agro é pop, como se diz. “Tem que ter uma nova visão. Não é um sítio, é uma empresa. Esse é o desafio: gestão. Você não pode explorar porque vai se acabar, mas você tem que produzir, você tem que viver”, comenta Miro.
Mas ainda assim permanece o desafio de lidar com a natureza e seus caprichos, suas mudanças às vezes bruscas. “A natureza é fantástica. Se você não for contra ela, você consegue produzir muito”, diz o agricultor. Seu sítio tem uma variedade de espécie, hortas e árvores em todo canto, algumas até pouco comuns na região. Sem contar os porcos e galinhas que eles mantêm na propriedade.
