Pescadores se preparam para mais uma safra da tainha em Laguna
Homens experientes, que herdaram o ofício de seus antepassados, eles encaram desafios diários para ganhar a vida com a pesca
Às 18h30 espocam no céu os primeiros foguetes avisando para a missa que iniciará dali a pouco. É noite de uma sexta-feira fria e pouco estrelada. O vento gelado exige casacos mais grossos para enfrentar a temperatura que começa a cair.
Os devotos vêm chegando e vão se reunindo no galpão de madeira erguido na beira da lagoa. Uns aproveitam para colocar a conversa em dia; outros preparam o rancho para a celebração: acomodam a imagem de Nossa Senhora em lugar de destaque, ajeitam toalhas e flores e organizam os demais objetos que fazem parte da liturgia da missa.
Pedro Paulo da Silva Agostinho, 54 anos, conta que é sempre assim, há cerca de 10 anos. Em todo início de safra da tainha os pescadores se reúnem para uma missa. É quando eles pedem por proteção e para que a temporada, a mais esperada do calendário particular dos pescadores, seja de fartura.
Há 35 anos na pesca, enfrentando o mar e seus caprichos, Pedro é o dono do rancho onde se dá a celebração, naquela sexta-feira, dia 13.
O seu galpão fica na margem direita da Lagoa Santo Antônio dos Anjos, em Laguna, na Ponta da Barra, diante do qual se encontram alguns barcos de madeira, todos equipados e bem conservados, à espera do início da caça à tainha.
O barco de Pedro recebeu o nome de Northwestern – sim, o mesmo da embarcação que estrela a famosa série de TV Pesca Mortal. É com ele que Pedro e mais sete pescadores se lançam ao mar, em busca do pescado com que sustentam a família e mantêm um costume transmitido de pai para filho.
Mesmo habituado ao ofício, Pedro não esconde a ansiedade com a chegada de mais uma safra da tainha. Ele é o único da família que ainda permanece na pesca. Os demais preferiram ir por outros caminhos. “Só eu continuei a profissão que aprendi com o pai. Meus irmãos e sobrinhos seguiram outras áreas”, diz.
Leandro de Oliveira, 49 anos, da parelha de pescadores de Pedro, é o único que mora do outro lado da lagoa, no vizinho bairro de Magalhães. De madrugada, ele pega seu bote e cruza o canal até o galpão na Ponta da Barra, onde se junta aos parceiros de pesca antes de mais uma lida em alto-mar.
“A esperança é que a pesca nunca acabe. Quero trabalhar enquanto tiver saúde”, conta Leandro.
Na pesca artesanal, eles zarpam antes de o sol nascer e voltam para casa no fim do dia, quando a noite cai. No dia seguinte, a mesma rotina. Os barcos são equipados com sonda e rádio a bordo para auxiliar na navegação, mas no dia a dia o que conta mesmo é uma combinação de sorte e experiência para um cerco bem-sucedido aos cardumes de tainha.
Mas, na era dos aplicativos de mensagem, a troca de informações entre as embarcações facilita bastante na localização dos peixes. De posse desses dados e considerando que o pescado migra do sul para o norte, fica mais fácil saber do seu paradeiro.
Os pescadores lidam com a natureza e, por isso, precisam ainda contar com outras duas condições: o frio e o vento sul.
Como em todo início de safra, é grande a expectativa dos pescadores.
O Northwestern, por exemplo, tem capacidade para até 11 toneladas e sua rede trabalha com cerca de 30 metros de profundidade. É uma pesca costeira: eles costumam navegar entre Morro dos Conventos e Imbituba, num movimento sempre à mercê dos cardumes. Outros barcos às vezes vão além, da Barra da Lagoa, em Florianópolis, até Torres (RS).
Entre os pescadores, nem todos querem os filhos no mesmo barco
Depois da tainha, ainda há a temporada da anchova e da corvina. Mas, encerrado o período da pesca mar afora, eles precisam encontrar outras formas de obter o sustento. Uns se dedicam à pesca na lagoa, de onde tiram camarão e alguns peixes, nesse caso com a vantagem de ter a parceria do boto-pescador, que atrai os cardumes para perto dos pescadores.
Há 21 anos na pesca, Leandro aprendeu o ofício com o agora ex-sogro. Mesmo com as dificuldades e incertezas de quem vive do mar, não pensa em deixar a pesca por uma atividade, quem sabe, mais estável. “Vida de pescador é assim. É a nossa cartilha, a gente já sabe de tudo. Depois de certa idade, recomeçar é complicado. Peço saúde a Deus para pescar bastante. E que isso aqui não se acabe”, confessa.
Dos seus filhos, nenhum deles o segue na pesca. “A gente sabe que é sacrificante. Por isso eu peço que eles vão para outro rumo”, diz Leandro. Foi assim com o colega Eliseu da Silva, 45 anos. Na pesca desde a adolescência, casado e pai de três filhos, não quer vê-los seguindo seu caminho pelo mar. “Meu menino mais velho fez faculdade – engenheiro civil –, e quero mais é que eles estudem, pois faça chuva ou faça sol, o salário chega. Para a gente que depende do mar, é bem diferente”, reflete.
Juceli Marques Martins, 52 anos, dos quais 22 como pescador, concorda com Eliseu. Mas eles também não negam a emoção de ver a rede cheia, em dia de sorte na pescaria.
Burocracia e as ameaças da pesca industrial
As ameaças à pesca artesanal não vêm apenas do mar – da onda que pode quebrar alta na boca dos Molhes da Barra ou de um vento furioso que deixe as águas agitadas. A pesca industrial, que recolhe o pescado em larga escala, também põe em risco a atividade do pequeno pescador.
“A indústria não tem escrúpulos. Só quer quantidade, daí não preserva nada. A pesca de arrasto é o câncer do mar”, critica Leandro. Essa modalidade de captura, como conta o pescador, lança suas redes da costa para o fundo do mar, e, sem muito critério, recolhe tudo o que encontra pelo caminho. Ocorre, porém, que é exatamente na costa onde o peixe desova, é o seu berçário natural. “A gente depende que o peixe cresça, se desenvolva. Se não cresce, não tem peixe”, relata.
Leandro não esconde seu desapontamento ao falar de barcos que aportam com o convés apinhado de peixes miúdos, ainda inadequados para o consumo. “Servem para a indústria. Acabam virando ração para os criadores de tilápia”, diz.
No galpão construído há uns 30 anos por Pedro, Edivaldo Preis, de 36 anos, ouve as histórias dos antigos pescadores. Eles relembram o tempo em que não havia tanta burocracia dos órgãos oficiais para quem vive da pesca. Ao contrário dos colegas, com mais de 20 anos de profissão, Edivaldo tornou-se pescador há apenas dois anos.
Morava em Criciúma e trabalhava como metalúrgico. Faz menos de um mês que se mudou para Laguna e agora se prepara para sua próxima safra. Dos principais entraves para a pesca, ele cita o aumento do preço do combustível. “Em até dois dias gastamos quase 100 litros de diesel, o que chega a uns R$ 700. Se a gente não pesca, a despesa é a mesma”, calcula.
Antes de entrar com o barco no mar, há uma série de exigências diante do pescador, que, não raro, o faz largar o ofício. “Faz uns três anos que decidi parar. Vendi o barco e fiquei um tempo fora”, relembra Pedro. Mas sua relação com o mar e a tradição pesqueira o fizeram recuar da decisão. “Voltei só pela tainha”, confessa.
