“Moeda de palanque eleitoral”, diz liderança da pesca em Jaguaruna sobre desassoreamento da Barra do Camacho
Relatos apresentados em reuniões recentes na região da Amurel apontam que o nível da água em diversos pontos já recuou para cerca de 50 centímetros
A Barra do Camacho, em Jaguaruna, vive mais um capítulo dramático de sua história. Vital para a economia pesqueira da região e para o escoamento de águas da bacia do Rio Tubarão, o canal sofre hoje com um processo severo de assoreamento que ameaça fechar completamente a sua ligação com o mar.
O problema ganha contornos ainda mais urgentes diante dos alertas meteorológicos para os próximos meses sob a influência do fenômeno El Niño, o que eleva drasticamente o risco de cheias e inundações nas comunidades ribeirinhas.
Convidado do Jornal da Manhã desta segunda-feira (29) na Rádio H²O, Jaime Mariano Porto, conhecido como ‘Pitbull’ e presidente da Associação de Pescadores da Região de Garopaba do Sul, não poupou críticas ao que ele define como inércia do poder público. Segundo ele, o local – que considera a “maior empresa de Jaguaruna” pelo sustento que gera – virou uma moeda de palanque eleitoral.
“A cada quatro anos a Barra do Camacho sofre essa agressão política. Eles vão lá falar em Barra do Camacho, mas passa-se o mandato e ela deixa de ser interessante. Daqui a dois anos tem eleição para prefeito e tu pode ver que eles vão estar trepados lá em cima do molhe dizendo que foi uma obra que eles fizeram”, desabafou a liderança.
“Dá para andar a pé na boca da Barra”
A falta de manutenção transformou o canal em um banco de areia. Relatos apresentados em reuniões recentes na região da Amurel apontam que o nível da água em diversos pontos já recuou para cerca de 50 centímetros.
O cenário descrito por Pitbull assusta: “Se pegar um dia de vento nordeste e maré seca, tu consegue andar a pé em cima da boca da Barra do Camacho. É inacreditável o investimento que teve ali e o descaso atual”, afirmou, fazendo referência a última obra de desassoreamento, ocorrida em 2022 e com investimento de R$ 10 milhões.
O assoreamento impede a navegação dos barcos e barra a entrada de espécies como o camarão e a tainha na lagoa, inviabilizando o sustento de centenas de famílias que dependem exclusivamente da pesca.
Burocracia e falta de articulação
De acordo com o presidente da associação, a solução definitiva para o Camacho exige a extensão dos molhes “para fora” (em direção ao mar aberto), o que evitaria o empuxo constante de areia para dentro do canal. Uma realidade parecida com a enfrentada pela comunidade irmã do Farol de Santa Marta, onde pescadores sofrem diariamente para colocar e tirar embarcações da água sem o maquinário adequado.
No entanto, mesmo as medidas paliativas de emergência esbarram na falta de gestão local. Pitbull afirmou que o Governo do Estado já havia disponibilizado uma draga para ficar fixa no local realizando a manutenção, mas o equipamento acabou subutilizado e coberto pela burocracia.
O atalho para resolver a crise de forma imediata estaria nas mãos da Prefeitura de Jaguaruna, amparada por decretos estaduais preventivos contra o impacto do El Niño.
Segundo o relato do líder pesqueiro, o próprio Secretário de Estado da Pesca garantiu, em reunião recente, que a liberação de uma dispensa de licença ambiental para a retirada da coroa de areia é simples, bastando a iniciativa do Executivo municipal.
“A concessão de uso e comercialização daquela areia é da prefeitura. A draga da Confer [empresa da região] estava ali na mão, eles querem a areia. Sairia de graça para o município, era só autorizar. Mas falta humildade política para os gestores sentarem com a comunidade e assinarem o pedido”, opinou Pitbull, citando que órgãos como o IMA (Instituto do Meio Ambiente) e a Epagri possuem canais abertos para viabilizar a liberação.
Confira a entrevista completa